O Bispo Ambrósio desafia a Imperatriz 385 D.C. Grandes acontecimentos que marcaram a história do Cristianismo. (Comentário de Pastor Luiz Antonio).

Ambrosio desafia a ImperatrizO trabalho pastoral de Ambrósio não se limitou à pregação,  administração dos sacramentos ou à direção dos assuntos econômicos da igreja, etc. Era um homem de fé firme, radicado em uma das principais cidades do Império, sendo um homem de princípios e convicções firmes era inevitável que suas convicções não se tornassem contra a Coroa um dia. Os conflitos mais importantes de Ambrósio com a Coroa foram os que o colocaram frente a frente com a imperatriz Justina. No Ocidente governava, além do Graciano, seu meio-irmão Valentiniano ainda menor de idade. Sendo Valentiniano menor de idade a regência recaíra sobre Graciano. Mas na ausência de Graciano a mãe de Valentiniano, Justina, tinha muito poder, e ela tinha a firme intenção de usar esse, poder para afirmar seu filho sobre o trono e para promover a causa ariana, da qual ela era partidária convicta. Contra seus planos se levantava Ambrósio, cuja política consistia em preencher cada sede das proximidades que ficava vaga com um bispo ortodoxo.

Os soldados cercaram a catedral de Milão. O bispo Ambrosio recebeu ordens da imperatriz Justina para abdicar do controle do prédio, mas ele não se moveu. A guarda germânica do imperador preparou-se para executar as ordens da imperatriz. A guarda não apenas tinha grande lealdade à imperatriz, mas os germanos, provavelmente, eram também arianos, ao passo que o bispo seguia os ensinamentos ortodoxos do Concilio de Nicéia.

Muitos esperavam o massacre dos considerados infiéis reunidos na catedral, mas os observadores ouviram o som de salmos ecoando pelo ar e por isso a força imperial deparou-se com uma fé inabalável.

O homem em quem esse conflito estava centralizado era o bispo Ambrosio um dos líderes mais fortes que a Igreja já conhecera. Ambrosio, ainda jovem filho de um dos mais altos oficiais do governo de Constantino, fora criado para seguir os passos de seu pai. Quando terminou seus estudos em Direito, foi nomeado governador do território em volta da cidade de Milão. Muitos o consideravam um líder justo e altamente capaz.

Na época em que Ambrosio ocupava a posição de governador, um ariano chamado Auxêncio ocupou a posição de bispo de Milão. O bispo morreu em 374, e um grande tumulto se levantou enquanto a Igreja tentava escolher o sucessor. Devido ao seu papel governamental, Ambrosio foi até lá para abrandar a contenda.

De repente, alguém começou a gritar: “Ambrosio para bispo!”. E muitas mais pessoas se juntou ao coro.

O único problema era que Ambrosio nem sequer fora batizado. Embora já acreditasse em Cristo havia bastante tempo, continuava um iniciante sem confirmar sua fé. Mas isso não parecia fazer a menor diferença. A aclamação popular fez com que, em somente oito dias, ele fosse consagrado o novo bispo de Milão, queimando as diversas etapas importantes, como o batismo e muitos cargos intermediários que eram requeridos para alcançar esse cargo.

O arianismo[1] perdera seu poder. O último imperador do Oriente a defender essa causa foi Valente, morto em 378. Graciano, imperador do Ocidente, indicou o general Teodósio para governar a metade oriental do império, a partir de Constantinopla. Em 380, os dois imperadores promulgaram um édito declarando o cristianismo niceno a religião de todo o reino. Isso terminou por destruir a seita ariana, exceto em algumas terras distantes, entre os godos e entre alguns membros da família imperial.

Ambrosio levou muito a sério sua posição como bispo. Estudou as Escrituras, e os Pais da Igreja com intensidade, e começou a pregar todos os domingos. Ele sempre fora um grande orador e agora seu discurso tinha ainda mais profundidade. Basilio de Cesaréia, um de seus contemporâneos, descreveu Ambrosio como “um homem notável por seu intelecto, por sua linhagem ilustre e por sua notoriedade na vida e no dom da palavra, um objeto de admiração de todos neste mundo”.

Um de seus admiradores era um escritor de discursos chamado Agostinho. Este jovem cartaginês já pesquisara o maniqueísmo e fora atraído pelos pagaos de Roma. Fora mandado para Milão como professor e retórico do imperador adolescente Valentiniano. Naqueles dias, o poder imperial tinha sua base em Milão, mas o Senado, em Roma, ainda era influente.

De maneira geral, os senadores ainda abraçavam os antigos modos pagãos romanos, mas os imperadores eram cristãos. É bem possível que Agostinho tenha sido mandado pelos pagãos do Senado para ajudar a influenciar o jovem imperador Valentiniano.

Por razões políticas, Agostinho tornou-se catecúmeno na igreja cristã e durante esse processo, entrou em contato com Ambrosio e ficou impressionado com a humildade e o poder do bispo. Mais tarde, por meio do testemunho de um dos ajudantes de Ambrosio, Agostinho se converteu (daremos mais detalhes sobre Agostinho no próximo – Grandes Acontecimentos que marcaram a História do Cristianismo).

Ambrosio também ficou conhecido como compositor de hinos.

Justina era a mãe do imperador Valentiniano, o sucessor de Graciano como governador do Império Romano do Ocidente. Ela era o poder por trás do trono. Como ariana, queria reclamar para si a catedral de Ambrosio, assim como outra igreja em Milão, para que pudessem ser usadas pelas congregações arianas. Ambrosio se recusou a ceder a catedral. Ela então enviou soldados para cumprir suas ordens. O palco estava preparado para o derramamento de sangue.

No entanto, as tropas se dispersaram. Ninguém sabe o porquê. Alguns acham que Ambrosio pode ter feito com que uma mensagem chegasse até Teodósio, homem fervoroso, não-ariano, que governava o Oriente. Talvez a mensagem para Valentiniano, ameaçando a fúria de Teodósio, tenha feito com que o jovem suprimisse os planos de sua mãe. Seja qual for o caso, Ambrosio se posicionou diante da corte imperial e venceu.

Mais tarde, Ambrosio enfrentou o próprio imperador Teodósio. O imperador reagiu de forma exagerada a um distúrbio em Tessalônica, enviando o exército para massacrar os cidadãos daquela cidade. Ambrosio considerou isso um ato hediondo e excomungou Teodósio até que o imperador cumprisse penitência. O fato de o imperador voltar à catedral vestido de saco e coberto de cinza e ajoelhar-se diante do bispo buscando perdão é um testemunho tanto da coragem de Ambrosio quanto da humildade de Teodósio.

Houve um tempo em que a Igreja enfrentou a perseguição de imperadores, agora porém vemos um se humilhando ante o poder da Igreja. Com Ambrosio, um novo padrão de relacionamento entre a Igreja e o Estado começava a se desenvolver.

[1] O arianismo foi uma visão cristológica sustentada pelos seguidores de Ário, presbítero cristão de Alexandria nos primeiros tempos da Igreja primitiva, que negava a existência da consubstancialidade entre Jesus e Deus Pai, que os igualasse, concebendo Cristo como um ser pré-existente e criado, embora a primeira e mais excelsa de todas as criaturas, que encarnara em Jesus de Nazaré. Jesus então, seria subordinado a Deus Pai, sendo Ele (Jesus) não o próprio Deus em si e por si mesmo. Segundo Ário, só existe um Deus e Jesus é seu filho e não o próprio Deus. Ao mesmo tempo afirmava que Deus seria um grande e eterno mistério, oculto em si mesmo, e que nenhuma criatura conseguiria revelá-lo, visto que Ele não pode revelar a si mesmo.

 

Referências Bibliogáficas

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